domingo, 29 de janeiro de 2012

William DuVall: Entrevista exclusiva ao site "Comunidad Alice in Chains Chile" #1

O site chileno "Comunidad Alice in Chains Chile", conhecido pelo bom material que publica sobre a banda, conseguiu uma entrevista exclusiva com William DuVall. A entrevista é bastante extensa e detalhada e por essa razão está dividida em duas partes. Segundo o site, a segunda parte será publicada hoje, às nove da noite - fuso horário do Chile; à meia noite - fuso horário de Portugal. Nesta  primeira parte DuVall fala um pouco sobre a sua infância [gostos musicais, influências], a morte de Layne Staley, os seus projetos musicais e a sua relação com Cantrell.

C.AIC.C (Comunidad Alice in Chains Chile)
W.D (William DuVall)
C.AIC.C: Passaram-se muitos anos desde aquele episódio da tua vida em que viste Black Flag no documentário "The Decline of Western Civilization", o que te fez decidir o teu destino aos 11, 12 anos? Como te lembras daqueles dias de descoberta?
W.D: "Lembro-me daqueles dias com muito carinho. Eu sentava-me em frente do meu toca-discos barato e fingia que era o DJ da maior estação de rádio do mundo, uma estação que só existia na minha mente. Eu gostava de tocar Jimi Hendrix, em seguida Ornette Coleman, depois John Lennon, em seguida Chic, em seguida MC5, etc... Adorava. Aqueles anos foram muito importantes e impressionantes para qualquer um. Tive a sorte de ser exposto a boa música bem cedo. Eu fui ainda mais feliz por ter a curiosidade natural e o desejo insaciável de buscar mais boa música por conta própria."

C.AIC.C: Em 1982, mudaste-te para Atlanta, onde tinha a cena punk hardcore da cidade. A tua primeira banda foi Void of Chaos, em seguida, Neon Christ. Tocaste com bandas como Corrosion of Conformity, DRI e Dead Kennedys. Sendo tão jovem, deve ter sido incrível para ti. Podes nos falar mais sobre isso?
W.D.: "Foi um momento incrível. Ser um rapaz de 14 anos de idade, bem no meio de uma nova forma de rock tomando forma e participando numa nova cultura inteira - nova música, novas roupas, novo 'Do-it-yourself', modelo de negócio para as gravadoras, turnês, fanzines (anos antes de telefones celulares e internet), foi tudo feito de miúdos para miúdos, de forma independente - o que eu creio ser a melhor maneira que se pode passar a adolescência. Quanto mais velho fico, mais eu aprecio o que isso significa. Absolutamente marcou o que sou hoje."

C.AIC.C: O que pensas sobre os movimentos sociais ao redor do mundo em 2011? Movimentos sociais Árabes, na Europa, nos Estados Unidos, como a ocupação de Wall Street, e na América Latina também. Chile não foi excepção, pois em diferentes movimentos, cidadãos saíram às ruas para protestar, principalmente em movimentos estudantis. Isso não é novidade para ti. Certamente, muitas pessoas vem a sua mente: Martin Luther King, Fred Shuttlesworth, Fela Anikulapo Kuti, Nelson Mandela, por exemplo. Tu também lutaste contra a injustiça, contra a guerra, contra a KKK, a organizar e a participar em manifestações públicas, com o Neon Christ. Hoje as pessoas tomaram as ruas ao redor do mundo.
W.D.:"Eu acho que é maravilhoso. E inevitável. As pessoas estão a ser deixadas sem escolhas. E os direitos humanos são negados. Sou a favor de todas essas lutas aqui nos Estados Unidos e em redor do mundo."

C.AIC.C: Podes contar-nos um pouco sobre tua relação com Vernon Reid, guitarrista dos Living Colour?
W.D.:"O Vernon e eu somos amigos há mais de 20 anos. Além de ser um grande músico, é também uma das pessoas mais reflexivas e profundas que já conheci."

C.AIC.C: Gostaríamos de saber um pouco sobre teus dias na faculdade. Tens uma licenciatura em filosofia, com enfase em religião. Como aplicas esse conhecimento na tua vida e na tua carreira musical?
W.D.: "Minhas atividades académicas na Universidade Estadual da Georgia foram baseadas puramente em total curiosidade sobre a vida em geral. A nossa existência tem algum significado? Se for assim, o que é? Quanto à minha especialização em religião, eu acho que é muito importante fazer a distinção entre religião e espiritualidade. Eu acho que alguém pode ser espiritual sem aderir aos princípios de qualquer religião em particular. Dito isso, o meu estudo de religiões diferentes foi, em parte, um reflexo sobre meu interesse por mitologias e rituais. Vejo a beleza e terror na nossa necessidade de ritualizar as nossas práticas espirituais. Eu queria encontrar elementos comuns que têm existido em todas as religiões praticadas ao longo da história para descobrir laços que unem a humanidade através dos séculos. Por exemplo, eu acho que é interessante que algumas das idéias que associamos como fundamentais no cristianismo, como 'Regra de Ouro', 'Mandamentos' com o qual se deve viver, e o conceito do nascimento de uma virgem, que existia no antigo Egito milhares de anos antes da época de Cristo. Também estou interessado nos padrões pelos quais a religião tem sido usada como uma ferramenta de controle social por todos os impérios que já existiram. Digo isso não para denegrir as crenças religiosas ou espirituais de qualquer pessoa. Esta é apenas a minha própria curiosidade, a minha busca pessoal por um sentido."

C.AIC.C: Com a tua banda Comes With the Fall, a música tornou-se muito mais obscura em comparação com o Madfly. Ambas as bandas tinham quase os mesmos membros, mas soavam completamente diferentes. Podes falar-nos sobre essa mudança?
W.D.: "Madfly foi o resultado de quando eu estava a tentar muitas coisas novas pela primeira vez - novas formas de escrever, novas formas de cantar, a tornar-me produtor musical, a aprender como funciona a indústria da música, a iniciar minhas gravações com o selo DVL. Foi uma tentativa de enfrentar muitos desafios, ao mesmo tempo, tanto de forma artística como profissional. E, claro, quando assumes muitas responsabilidades pela primeira vez, surgem resultados mistos. Haviam algumas grandes canções escritas e registadas durante os Madfly, mas havia também uma falta de direção e coesão. Pela primeira vez na minha vida, eu não tinha certeza do que é que eu queria fazer musicalmente. Então eu tentei fazer tudo numa banda. Algumas coisas funcionaram, outras não. Mas foi muito importante para meu desenvolvimento. Os Madfly lançaram dois álbuns, um em 1996, outro em 1998. Então, no verão de 1999, a minha visão turva ficou clara. De repente, tudo foi pensado novamente. Consegui a minha espinha dorsal. Esse foi o Comes With the Fall."

C.AIC.C: A conexão entre os Comes With the Fall e o filme "O Bebé de Rosemary", de Roman Polanski é impressionante. O nome do álbum The Year Is One vem desse filme. Podes explicar essa conexão?
W.D.: "'O Bebé de Rosemary' é um dos meus filmes favoritos. Mais uma vez, eu amo a beleza e o terror inerentes à religião e ritual. Eu sou fascinado pela eterna luta que existe na natureza humana entre os 'bons' e os 'maus'. E eu também simplesmente gosto de uma boa história. 'O Bebé de Rosemary' é isso tudo. E ele foi filmado de forma muito bela e tem atuações maravilhosas."

C.AIC.C: Existe alguma possibilidade de haver um novo material dos Comes With the Fall num futuro próximo?
W.D.: "Eu não posso dizer quando é que isso vai acontecer. Obviamente, existem muitas outras coisas a acontecer agora. Mas nosso trabalho não está terminado."

C.AIC.C: Em 2000, o Jerry Cantrell declarou-se um admirador do Comes With The Fall, e mais tarde foram anunciados como a banda de abertura e de suporte do Jerry na digressão de Degradation Trip. Este foi o início de uma grande amizade. Como te sentiste com esse novo desafio?
W.D.: "Eu senti-me bem com isso. Eu sabia que tinha uma grande banda que poderia lidar com qualquer coisa. Eu senti-me agradecido pela oportunidade da digressão e por tocar para as pessoas. Tocámos cinco noites por semana, dois sets por noite, para todos os EUA e Reino Unido, ao longo de 2001 e 2002. Foi cansativo e não ganhamos muito dinheiro. Mas foi um dos momentos mais felizes da minha vida."

C.AIC.C: Qual sua opinião sobre o álbum Degradation Trip?
W.D.: "É o meu favorito dos seus discos solo. A nossa amizade foi forjada em dois discos: Degradation Trip e Comes With The Fall. Todas as vezes que ouço algo de qualquer um dos dois discos, sou golpeado por uma enxurrada de lembranças - algumas obscuras, algumas incandescentes - mas todas muito importantes."

C.AIC.C: Em Abril de 2002, Layne Staley morreu. E perdeste o teu avô na mesma semana, quando foi publicada a morte do Layne. Isso foi muito pesado e triste. Sobre isso, só quero saber... Onde encontraste a força para continuar?
W.D.: "Eu encontrei a força na música, como sempre fiz desde que era criança. Em todo caso, acho que Cantrell e eu tivemos sorte por estarmos em digressão nessa época. Nós tínhamos sempre concertos para dar. Mantivemos-nos focados e conseguimos um lugar saudável para canalizar parte das nossas dores. Provavelmente teria perdido toda a razão se tivesse sido de outra forma."

C.AIC.C: Conheceste a família de Layne Staley há alguns anos, e eles aprovaram o que estás a fazer na banda. O que isso significa pra ti?
W.D.: "Sinto-me honrado por ele."

C.AIC.C: A arte do álbum Black Gives Way to Blue é muito interessante, a começar com o coração na capa. Numa entrevista o Jerry disse: "Eu escrevi essa canção, sabe, é só o coração aberto, uma verdade crua, uma canção de coração para o Layne". Qual é o conceito por trás da capa para o Black Gives Way to Blue? De quem é?
W.D.: "Foi um conceito básico do Sean Kinney, mas todos tivemos uma mão nele".

C.AIC.C: Qual é a tua canção preferida do Black Gives Way to Blue. Porquê?
W.D.: "'Last of my Kind'. Eu escrevi a letra em meia hora na casa do Cantrell. Em seguida, eu e o Cantrell olhámos um para o outro como se disséssemos 'Yeah, bem feito'. Foi um momento genial."

C.AIC.C: Motor City 5... o que é que isso realmente significa para ti?
W.D.: "Isso significa muitas coisas: liberdade, energia, poder, beleza, sacrifício, movimento, unidade, vida. O MC5 foi tudo o que um grupo de rock n' roll devia ser. Quando eu tinha 11 anos de idade, costumava ouvir as suas músicas enquanto encarava a capa dos seus discos, a desejar pular dentro dele e estar no meio do furacão. 30 anos depois e de repente eu consegui fazer isso. Duas vezes. Indescritível."

C.AIC.C: Podes contar-nos alguma coisa sobre o teu trabalho com os Monster? O álbum debut é ótimo!
W.D.: "Obrigado! Este grupo é especial. Tem uma mistura maravilhosa de inocência e pesadez. E quando eu digo 'pesado', quero dizer não apenas o som. Quero dizer o emocional e a intenção da sua música. É muito dinâmico. Há luzes e sombras, e camadas de significados. Charles, o vocalista, não tem medo de ser vulnerável. Todas essas coisas fizeram-me dizer 'SIM' quando a banda me pediu para produzi-los. Estou muito orgulhoso com esse registo e muito orgulhoso desses homens."

1 comentário:

  1. William DuVall é um sujeito bem simpático e com uma visão positiva das coisas, o que aparenta nessa entrevista.

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